Soltam-se por entre as nuvens os raios de cor âmbar a beijar o meu rosto,
Como um rebelde que se anuncia junto à praça da liberdade,
Enfrento uma vez mais uma dolorosa sensação vestida de caligrafia antiga,
Chego-me à esplanada de um pequeno café para lá pedir um conhaque,
Uma leve brisa que corria por entre a rua refresca-me o meu semblante,
No jornal pode-se ler as letras garrafais que ali perto um navio vindo da América iria aportar,
Os meus lábios soltam um sorriso por imaginar quem lá poderia chegar,
Apresso-me a deixar umas moedas para que o empregado impertigado lhe fizesse as contas,
Quero sem pudor e sem apelo descobrir que feições podiam ser descobertas no Porto Santa Maria,
Ao virar da esquina e de forma acelerada apanho o autocarro 21 que me iria levar até lá,
Sento-me na parte de trás onde podia largas à minha imaginação,
Rabisco no meu caderno de bolso pequenos rasgos que o meu pensamento me ilustrava,
Num piscar de olhos vejo perante uma monumental embarcação que se perdia de vista e reluzia de tanto esplendor,
Como seria viajar em tamanho navio por entre oceanos e marés pensava eu cá comigo,
Acordo rapidamente deste sonho que me levava para além do tempo,
Queria descobrir por entre os trausentes que desembarcavam que sorrisos podia emoldurar,
Os cheiros a lírios e cítricos intensos invadiam de forma contendente o ar,
Mas havia algo mais, um cheiro que se destinguia por entre as cores perfumadas ao vento,
Um olfato que sentia a fragrância floral e amadeirada que se distinguia por entre os demais,
Num vestido de silhueta estruturada em cores vibrantes e cheios de vida,
Vou sem esperar nem mais um minuto ao encontro desta imagem feita na terra,
A arranhar o meu inglês lá consigo balbucinar umas palavras de saudação e acolhimento a esta terra distante,
Pergunto-lhe se está acompanhada e precisa de ajuda para se instalar na cidade,
Ao que me responde vir à descoberta de novas aventuras e na procura da magia da noite,
Sem pestanejar ofereço-lhe os meus serviços de guia pela cidade,
Combinamos um encontro junto à Praça da Liberdade na pastelaria para o pequeno-almoço,
É tarde, mas a noite ainda começara para mim, procurava nas palavras e nos dicionários os textos que lhe poderia traduzir,
Pela manhã, arranjo-me com o meu melhor fato, deito pelo corpo abaixo o perfume que tinha comprado ao amigo Elias na loja do bairro,
A passo largo sigo sem parar para me encontrar com a personagem que me tinha arrebatado no dia anterior,
Chego a cinco minutos das nove, sento-me à sua espera e releio os folhas que trazia comigo no bolso do casaco,
Numa aparição divina eis que lhe vejo o rosto de porcelana, que miragem era aquela,
Aconchego-a à mesa e digo-lhe que os brioches eram divinais e que deveria provar um,
Começamos a conversar sobre as nossas vidas e o que nos levava a gostar por entre os mundos desconhecidos,
Já era tarde, depois de muito discutirmos os meandros de poetas, romancistas e dramaturgos, fomos passear até ao jardim das felicidades,
É nessa altura que ganho coragem dentro de mim, e começo a declamar o que as minhas folhas traziam escritas,
Ela escuta com atenção, pequenas rosáceas se desprendem do seu rosto sorridente,
Penso para comigo que talvez tenha sido do seu agrado e prazer,
Num ápice de voo de rapina, ela pega na minha mão e leva-a à sua face, sinto o seu calor,
Sinto um aperto dentro de mim, sentiria ela o mesmo que sinto dentro de mim,
De mãos dadas percorremos o jardim por entre recantos florais e lagos de água lavada,
Deixo-me guiar até ao fim do dia numa esperança de voltar a vê-la,
Sigo para casa envolto em mistério e um sentimento fechado,
Quero prender aquela sensação e dormir a sonhar com ela.
M.