É já manhã aqui junto à minha cama despida,
Solta-se um bocadinho à janela uma luz azeitada,
Não tenho tempo a perder e desço rapidamente até à cozinha,
Pego o café e uma torrada e sigo caminho,
Nas ruas já se ouve o ruído estridente dos carris para trás e para a frente,
Os vultos de gabardines e casacos de inverno atropelam-se por mais um dia de trabalho,
Aguardo pacientemente junto à estação do Oriente o comboio para me levar até à praia de outono,
Parto às nove e meia da manhã, tiro do bolso esquerdo o meu livro azul,
Envolto num enredo do século passado começo a ler sem parar,
Uma história vivida num país longínquo onde as almas procuram nas epopeias gregas o seu desejo,
Sem me dar conta chego ao meu destino,
Arrumo devagar o meu livro novamente no bolso e sigo até à praia,
Quero sentir o odor perfumado do mar que me salpica o rosto com o seu sal grosso,
Deixo-me ficar a contemplar a ondulação azul que crispava junto à orla da areia,
Na minha imaginação desenho uma silhueta descoberta nos meus sonhos,
Volto-me para a encosta brava e ao longe uma miragem,
Terá o meu sonho sido realizado.
M.