Foi numa manhã banhada pela luz madrugadora que iluminava o meu quarto,
Ainda a minha consciência ganhava vida e som da maresia já me chamava,
Os vapores quentes do chuveiro lavavam a minha alma que se almejava este calor,
Num corropio de sabores e café matinal dirijo-me rapidamente porta fora,
Vou à procura de mais um dia à procura da inspiração que preencha as minhas folhas em branco,
Para lá do monte das cerejeiras onde a sombra me protege do sol torreo,
Avisto ao longe junto à falésia numa praia que se escondia por entre as rochas de granito,
Que vulto era aquele que brilhava numa moldura pintada a azul salgado,
Rapidamente os meus pensamentos transbordavam de palavras que nem os anjos saberiam traduzir,
Fosse eu um Van Gogh e nesta tela à minha frente ilustraria a mais bela das mulheres,
Escapam de mim laivos de sensações que só nos meus sonhos poderia imaginar,
Quero ter a coragem de lhe dirigir uma palavra,
Mas não tenho a astúcia e bom falar que me levem a conquistar tal beleza,
Retenho-me junto ao penhasco e observo-a como o rio quer beijar o mar,
Em segredo junto à minha secretária de carvalho velho escrevo o meu melhor poema,
Quando o dia seguinte chegar terei a coragem de me encaminhar até ela,
Para num rasgo de loucura e ousadia iria-lhe dar a conhecer o que o meu coração escreveu,
É já manhã e nada me faria parar até ao monte das cerejeiras,
Ponho-me ao seu rumo e num passo acelerado chego ao seu sopé,
Lá está ela, deslumbrante e vibrante como nunca antes visto,
Desço por um trilho cortejado por ervas daninhas e flores silvestres,
Num segundo que mais parecia um século alcanço-a junto à areia molhada,
Sem demoras ou vergonha, desprendo a gagejar um cumprimento meloso,
Do outro lado, oiço o seu retorquir em tons de seda turquesa,
Todo o meu ser ilumina-se perante uma brisa perfumada que se desprendia do seu corpo,
Digo-lhe que este era o meu poema traduzido de um sentimento que me arrebatava o coração,
Numa troca de olhares condescendentes e de mãos dadas os seus lábios aproximam-se como um sonho.
M.