Sou uma pasmaceira de ser, sou lento a reagir, demoro a chegar
ao entendimento das coisas,
Levo a vida como uma corrida, tento ser o mais rápido
possível,
Chego depressa às desafios, respondo com celeridade, conduzo
rápido porque quero chegar rápido ao meu destino,
Ando depressa porque não quero perder tempo,
Não sei com o quê,
Porque acabo por não viver, quero chegar não sei bem aonde,
Namorar é rápido, casar rápido,
Apanho as coisas pelo caminho que quero possuir na minha
vida,
Nem lhes dou o tempo que merecem para saber se querem estar
comigo,
Assumo que estou a fazer bem depressa demais,
Quero as coisas só para mim, não gosto de partilhar aquilo
que é muito meu,
Sou ciumento,
Vivo obsessivamente a minha vida à procura de algo que nunca
consigo encontrar,
Também não sei o procuro, apenas que corro, para algures e
nenhures,
Fico afectado com a mentira e dissimulação nas pessoas,
Quero viver intensamente, mas não estou a ser capaz de dar a
intensidade que os outros querem,
Tenho medo e vergonha de não ser melhor,
Ser o mais ou menos, o que não é bom, mas também não é mau,
serve para as despesas,
Nunca ser o mais intenso, o disruptivo, o que defende
posições,
Sou mediano, fraco e medonho em algumas partes do meu ser,
Sei que o presente é o que interessa, mas vivo com a
experiência do passado para definir o meu trilho,
Não do passado experienciado, mas sim, daquele vivido por
outros que me servem de pêndulo e fonte de conhecimento,
Torna-me salobro, pouco vivido, porque sou rápido, não quero
perder tempo com coisas que se calhar deveria ter perdido,
Como se tivesse de passagem por este mundo, como se a minha
missão é estar noutro estágio,
Pois aquilo que quero levar daqui é tão mal vivido,
Tão pouco experienciado, que torna ridícula a minha vida.
M.